Ah.. esse layout de postagem é tudo que eu preciso.
Fui pra cozinha, sentei, abaixei a cabeça. "Não consigo escrever, Mãe, não consigo!". Algumas lágrimas caíram, sim.. poucas. Enfim.
- Não sofre, Julia, quando não conseguir escrever, vá fazer outras coisas.
- Seria lindo, Mãe, mas eu tenho prazos. Encontro com a Cyntia na segunda. Eu nem sei ao certo o que eu tenho que entregar, mas alguma coisa tem que ter.
É uma obrigação insuportável. Vocês não imaginam o quanto. A Arte Cênica é linda, minha paixão, meu vigor, minha inspiração e vontade. Me prender a moldes acadêmicos que me sufocam e me exigem caminhos que não quero andar, é péssimo.
"Vou fazer chá verde" - penso - "Tem muita cafeína e acelera o metabolismo. Abro a geladeira e lembro que fiz chá de alecrim alguns dias atrás. Bebo uns goles. É bom pra criatividade. Tô fazendo simpatia, mandinga e reza braba. Vai que funciona.
Mas eu só queria minha monografia mesmo. Conversar com alguém, explicar minhas idéias. Seria lindo. Sem ABNT tudo seria mais bonito.
Coloco a água pra ferver e separo um sachê.
- Mãe, pode tomar chá com leite?
- Chá com leite?! Nunca ouvi falar..
- Pai, pode tomar chá com leite?
- Chá com leite?! Não sei.
Volto pro meu quarto. A água já está morna lá na cozinha. Abro o google chrome. Digito "chá + leite". É, lá na Índia eles tomam pelo visto.
- Pode, Mãe! Vou tentar.
Pego um copo pequeno, encho com leite gelado. Esquento no microondas. A água do chá já ferveu. Coloco o sachê, espero um pouco e passo o sachê pro copo de leite. O leite começa a ficar menos branco. Que cor é essa? Bege? Provo um pouco. "Acho que ficaria melhor com um pouco de açúcar. Chá com açúcar eu acho péssimo, mas juntando com o leite, acho melhor adocicar." Uma colher de açúcar cristal. Mexo o leite. Olho pro chá quente, não posso colocar numa garrafa ainda, ela vai acabar ficando torta com essa quentura. Termino de misturar e vou pra sala.
- Ficou bom, Mãe. Lhe estendo o copo.
Ela praticamente ignora e vira a cabeça de leve, recusando.
- Prova, Mãe.
- Não gosto de leite.. Esse programa é muito bom. Deveria passar todo dia!
- Não é um programa, Mãe, é uma festa filmada. Por isso que é legal assim.
- Hoje eles tão falando de surf. Tem um monte de surfista aí. Acho que vai passar o filme do Zezé di Camargo depois.
- É.. podia era passar minha monografia.
O copo de leite com chá tá pela metade. Só foi interessante nos primeiros três goles. Prefiro meu chá de todo dia, sem açúcar e com água mesmo. Chá tem tudo pra ser super sem graça, mas eu acho o máximo. Depende de como você vê as coisas, né. Veja bem: água quente com gosto de alguma erva da sua preferência. Água morna com gosto de planta! Sério, isso é o máximo.
Sabe, eu sei onde eu quero chegar. Eu não sei muito bem como. Tenho algumas possibilidades mas não sei se consigo escolher.
Ai, a monografia do Albert tá tão boa. A da Natasha então, nem se fala.. poética e brilhante. Aff, eu não sou artista não. Não consigo fazer essas coisas de me explicar, de pesquisar, de usar metodologias e o caralho. Eu gosto de chá, de música. De cabelo. Eu adoro cabelos. Fico em crise de identidade por não conseguir falar sobre isso. Me assusta. Não me vejo como dona de mim. Meu existencialismo beira ao melodrama. Pós-dramático! MEU DEUS! Eu ainda não li a Bibliografia inteira. Aliás eu comecei a ler o livro do Hans e fiquei levemente de desperada (para não ser hiperbólica). Li um monte de coisa e não entendi nada. Puta que pariu, eu detesto quando isso acontece.
Meu pé tá gelado.
A Cyntia falou que eu sou cheia de verdades.
Mal sabe ela o quão equivocada ela estava.
Minto, ela falou que sou cheia de verdades na hora de escrever. E que eu chamei os espectadores de burros. Tem gente que é burra mesmo. Mas eu não tava chamando ninguém de burro não.
Quando eu explico, todo mundo entende. Eu não quero mais esse sofrimento. Quero ficar com meu namorado, ver meus amigos, aprender as coisas que eu ainda quero aprender.
Ah, ainda tenho que decorar o texto pro ensaio de amanhã às 6h.
Pânico e desespero.
Algo me diz que vai dar tudo certo aos 45' do segundo tempo.
Tudo bem.
Uma eternidade de sofrimento pra fazer algo que eu não quero, pra não sei quem.
Essas coisas que a gente não pode mudar.
Santa babaquice da humanidade.
Queria estar estudando pro concurso, queria passar logo nesse concurso. Mas é concurso de nível superiror, Julia, sem o diploma, ou seja, sem a monografia, não adianta nada passar no concurso. Merda federal! Não consigo escrever pra monografia e penso em estudar pro concurso, mas além de me sentir culpada, lembro que um não vai servir de nada sem o outro.
Eu sou um paradoxo ambulante. E detesto que me obriguem a fazer so jeito deles.
Sei lá quem são eles.
Sei lá quem eu sou.
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